quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



Carlos Drummont de Andrade

6 comentários:

Poison disse...

q lindo o poema, simplesmente simbolico.

os mais antigos são os melhores

israel_171 disse...

Amo Carlos Drummont, je me insprirou várias veses, em várias coisas

Esse poema é lindo, nunca tinha lido

israel_171 disse...

Ja* =X

Poison disse...

ai vc conhece meu amigo israel
e nem me disse.

nha tem nada naum

vou te ajudar a ter mais comentarios

só pq eu goste de tu
e da tua casa (^___^)

Israel Barbosa disse...

ai Brigado amiga ^^
Não sei se tenho um "Talento"
Só escrevo o que sinto...
Mas mesmo assim
Obrigado...

Ps: é Cida, agente se conhece a pouco tempo.. mas ela ja é uma amiga muito especial pra mim ^^

Dan-i-roN disse...

Carlos Drummond, é o maior poeta do Modernismo, ele é genial...
pra não diser fantástico.